quarta-feira, 13 de junho de 2007

A nova fronteira logistica - logistica reversa

De volta à origem

A demanda ambiental exigirá que as empresas incluam o conceito de “logística reversa” em sua gestão.

Sujou? Tem de limpar.” De certa forma, a lição que toda criança aprende em casa traduz a essência da “logística reversa”, um dos mais importantes conceitos que estão se incorporando ao cotidiano das empresas ambientalmente responsáveis. Nos velhos tempos, as companhias planejavam a distribuição de seus produtos somente de “dentro para fora”. Escolhiam as melhores rotas de transporte, os pontos de armazenagem, os fretes mais baratos... E pronto: uma vez que o produto chegasse às mãos do consumidor, davam-se por satisfeitas. Com o surgimento da logística reversa, porém, esse paradigma perde a validade. Agora, as empresas também precisam planejar todo o caminho de retorno de seus produtos para a fábrica depois de utilizados. Descartá-los no meio ambiente, nem pensar. Trata-se de um pecado capital perante ONGs e a comunidade local – que está cada vez mais atenta ao assunto. Para não sofrer danos de imagem e tampouco processos na Justiça, portanto, é necessário revisitar a velha lição. Distribuiu? Tem de recolher.

“Se ontem a logística era considerada apenas ‘almoxarifado’, agora é uma questão estratégica”, aponta Paulo Roberto Leite, autor do livro Logística Reversa: Meio Ambiente e Competitividade (Editora Pearson). Ele lembra que muitas empresas já praticavam a logística reversa sem saber – como no caso das distribuidoras de bebidas, que tinham o hábito de oferecer descontos para quem trouxesse cascos vazios e caixas de engradado de volta aos pontos-de-vendas. Agora, acredita, o conceito tende a se popularizar mais devido à grande quantidade de produtos descartáveis despejada no mercado, nos últimos 20 anos. “Haverá uma sistematização dos processos da logística reversa”, completa Adalberto Panzan, presidente da Associação Brasileira de Logística.



A logística reversa dará origem a linhas de “desmontagem” que recolhem os produtos e facilitam seu reaproveitamento.



Levada às últimas conseqüências, essa sistematização dá origem a uma nova estrutura corporativa: a “linha de desmontagem”. Trata-se de uma série de processos que decompõem os produtos e separam cada um de seus componentes – de modo que eles possam ser reaproveitados. Hoje, as linhas de desmontagem são realidade em diversas companhias, especialmente naquelas que utilizam a reciclagem como estratégia para reduzir custos com matéria-prima. “Reprocessar pode ser menos dispendioso na escala final do que produzir. O que vai impulsionar a adoção de um ‘ciclo fechado’ de logística é o fator econômico”, afirma José Mário de Carvalho Junior, diretor executivo da Muri, companhia especializada na fabricação de linhas de montagem. Ele ressalta, porém, que ainda vai demorar até as linhas de desmontagem se tornarem comuns no Brasil, pois falta uma cultura de reciclagem tanto nas empresas como entre os consumidores. “É algo para daqui a uns dez ou 15 anos”, ressalta.
Nos Estados Unidos, estima-se que as atividades de recolhimento e reprocessamento de produtos respondam, em média, por 4% do orçamento destinado pelas empresas à área de logística. No mercado norte-americano, o descarte consciente e a as linhas de desmontagem têm papel estratégico – já que boa parte da economia se ampara sobre a indústria de alta tecnologia. Como se sabe, o “lixo tecnológico” está se tornando um problema em países que não têm uma política consolidada de reaproveitamento. Infelizmente, o Brasil se enquadra entre eles. A cada ano, o país produz cerca de 30 mil toneladas de aparelhos eletrônicos, segundo a Associação Brasileira de Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Depois de utilizada, porém, quase toda essa bugiganga termina em depósitos ou em lixões – onde liberam substâncias nocivas à saúde humana como chumbo, cromo, mercúrio e outras. Uma sujeira que, definitivamente, precisa ser limpa.


Lixo tecnológico: logística reversa é uma das possíveis soluções
Fonte: Revista Amanhã
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